Sereia era bi, era do axé… e era branca

A Rede Globo exibiu a microssérie O Canto da Sereia no início de 2013, dirigida por José Luiz Villamarim e Ricardo Waddington. No dia 06 de janeiro de 2015, a emissora fez uma exibição adaptada em forma de longa-metragem. A microssérie é uma adaptação do livro homônimo de Nelson Motta, publicado em 2002.

Isis Valverde em O Canto da Sereia

A protagonista da série, Sereia (Isis Valverde) era bissexual, com uma aparente preferência por homens, escondia sua relação homoafetiva com sua empresária Mara Moreira (Camila Morgado), era filha de Iemanjá, frequentava casa de Candomblé, passava com a mãe de santo… Os outros personagens baianos também tinham fortes ligações com os Orixás, fazendo referência ao Candomblé em seus diálogos cotidianos, etc…

A série traz um aspecto que infelizmente é muito comum na vida das pessoas bissexuais: anular sua sexualidade e se comportar como monossexual, aparentando socialmente gostar de apenas um gênero. Para mulheres bissexuais, numa sociedade heteronormativa, esse gênero que socialmente assumimos a gostar, geralmente é o masculino, como ocorreu no caso de Sereia. Mesmo ela parecendo ser livre, dona de si. O que faz com que a sua relação com a empresária fique pra escanteio, ali escondidinha… por debaixo dos panos, ficando no “armário”. Havia também o personagem Só Love, pessoa com trejeitos afeminados, que gostava de se vestir de mulher e que era lida como homem bissexual na série.

Bom, finalmente a mídia hegemônica mostrou alguma vivência bissexual, que na própria série foi tratada como tal, pois vivências bissexuais têm em várias novelas, como o papel da Clara (Giovana Antonelli) na novela Em Família e do Claudio (José Mayer) de Império, mas ambos não foram chamados de “bissexuais”. No caso de Clara, que assumiu uma relação homoafetiva e passou a ser lida como lésbica, mas continuou sentindo atração por homem.

É claro que bissexualidade teve suas problemáticas na forma que foi mostrada em O Canto da Sereia: teve cenas de sexo explícito entre gêneros opostos, mas nas relações homoafetivas foram cortadas até cenas de beijos. A sexualidade das mulheres era mostrada na série como forma de agradar o público masculino: com muita exposição do corpo feminino, cheia de male gaze*. A mídia continua com seus tabus, embora queira forjar que eles estão sendo quebrados, continua lesbofóbica, bifóbica e machista, fingindo ser moderninha.

E novamente nós, mulheres e homens negros bissexuais não fomos representados… e que ironia: em um romance baiano, na cidade de Salvador, a cidade com maior população negra fora da África, onde a cultura é majoritariamente afro… A mulher bissexual da série era branca, assim como boa parte das stars mais pops do axé… Só Love também era branco.

Sereia, como já foi dito, uma mulher branca, se vestia como roupas associadas à estética das sereias e sua imagem com tais roupas e o cabelo em cima do colo, associava-se à imagem de Iemanjá, uma deusa do panteão africano, originariamente negra, que foi embranquecida pela cultura racista do Brasil. A mãe de santo Marina também era branca.

Não estou dizendo que brancos não podem ser adeptos das religiões de matriz afro. É claro que podem, nem estou questionando a qualidade da atuação de Isis Valverde, mas é bastante racista e apropriador retratarem a cultura afro com brancos a protagonizando. Tinha alguns negros na série sim, negros estes, coadjuvantes apenas, ou melhor, apenas participações especiais.

No ano passado, foi exibida a série chamada Sexo e as Nega pra falar de “negras quentes e boas de cama”, mas em uma série onde há uma cantora de Axé divando, cheia de sucesso, bissexual, filha de Iemanjá e baiana… ela é branca. Por que nos sobram sempre os mesmos papéis que reforçam estereótipos racistas? Por que quando retratam a cultura negra, colocam atores brancos para protagonizá-la? A mídia hegemônica (nesse caso, a Rede Globo) é racista, apagadora e que do alto de seus privilégios brancos fecha facilmente com a ideia de “Brasil, um país mestiço” e com a falsa democracia racial do país.

A bissexualidade pouco passa na TV, mal se é discutida e quando finalmente se vê uma série na TV brasileira falando dessa questão, como de praxe, ela não só colocou personagens bissexuais brancos, mas também embranqueceu a cultura negra. Ainda temos muito pra conquistar em termos de representatividade nos meios artísticos. Se o Movimento Bi quer representavidade bi na mídia, pra nós mulheres bissexuais negras, somente isso não basta, nós não vamos ser representadas por bissexuais brancas, nossas demandas são diferentes, nossa etnia é diferente, nossos traços são diferentes e a discriminação que sofremos é mais pesada também. Iemanjá é negra, nossa sereia é negra e não admitimos nem vamos deixar passar embranquecimento de nossa cultura em espaço nenhum, nem na telinha do plimplim.

Odo-Iyá!

Iemanjá

*male-gaze: significa em sua tradução literal “olhar masculino”, é um termo criado por Laura Mulvey em seu ensaio “Prazer visual e cinema de narrativa” para explicar como o cinema mostra o corpo da mulher colocando o público dentro da perspectiva de um homem heterossexual, as personagens femininas tem seus corpos, seus gestos sexualizados, a câmera foca em partes do corpo feminino que são consideradas sexuais. O male-gaze é muito comum até mesmo nas animações infantis.

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