Não é questão de pigmentação

Morena, mulata, cravo e canela, café-com-leite, da cor do pecado, bronzeada, dourada, parda, mestiça…
… Senhor!
Não tem uma definição um pouco mais precisa?
Não vem com esse papo de que somos todos iguais, todos seres humanos independente da raça e da cor
Isso é conversa pra apagar minhas raízes
Pra não dar a minha etnia o seu devido valor
Todos são iguais, mas o cabelo bonito é o liso
O olho bonito é o verde, azul
A religião NORMAL é a cristã
Ridicularizam minha crença em Obá, Oxum, Iansã
E querem que eu pense que todos devem ser olhados da mesma forma independente da raça e da cor?
Passei muito tempo aceitando o “morena” como classificação
Mas procurei meu passado
Deixei a química, o alisamento de lado
Olhei pra minha classe social
Comecei a perceber que aquelas brincadeiras na escola era discriminação racial
Que queriam me embranquecer
Apagar os últimos vestígios africanos que sobraram no meu corpo, fruto de uma relação inter-racial
Apagar os vestígios que convém apagar
Porque das minhas curvas, minhas nádegas, meus quadris, meus seios… Homem branco ainda quer desfrutar!
Meu corpo miscigenado é a carne mais consumida sexualmente no mercado
É a imagem da mulher negra ainda explorada, fetichizada, hiperssexualizada
E com a pele mais clara
Mais tolerável, mais fácil de aceitar
A imagem que eu vejo refletida no espelho
É a representação estética perfeita dessa sociedade racista
Que foi miscigenada através do estupro da mulher preta
Ah, isso não se fala na TV!
E através de uma ideologia eurocêntrica, elitista
Tentaram embranquecer o povo afro
Apagar, aniquilar, esquecer!
Me roubaram a melanina!
Minha pele é clara, mas restaram alguns traços
Traços estes que por mim serão preservados, potencializados, valorizados
Tentaram me embranquecer, mas não é tão fácil assim
Negro vive, negro ama, negro grita dentro de mim!
Muitos irmãos olham pra minha cor e não me consideram preta
Também pudera!
Ter pele escura no mundão é outra treta!
Mas branco NENHUM me considera branca
Pro branco eu morena, mulata, parda
Mas igual a ele eu não sou
Sou qualquer patifaria que inventaram pra esquecer da minha cor
O IBGE me classifica como parda
Ora senhor, pardo que eu saiba… é papel.
Não apague minha identidade, não esquecerei o passado e o presente cruel
Não esquecerei a opressão violenta que embranquece e esquece da comunidade negra
Para de falar dessa porra de democracia racial
Você sabe senhor, a gente não é igual!
Pele clara
Cabelo crespo
Minha história ninguém mais apaga!
Acha que essa crise de identidade
Essa sensação de ser um ser indefinido
Um animal híbrido não é discriminação racial?
Brancos não me veem como branca
Mas querem meu corpo em suas camas
Isso é normal?
Mas eu não abaixo a cabeça mais não
Aprendi com Steve Biko que ser negro não é questão de pigmentação
Pra todos os pretos e pretas eu digo: irmãos, preta eu também sou!
Pros brancos, recado:
Essa falsa miscigenação como tentativa de apagar meus traços, minha história…
FRACASSOU!
Nem parda, nem morena, nem mulata!
Mulher preta
Tô na luta pra combater esse embranquecimento físico e cultural
Na luta pra combater todas essas crises de identidade que plantaram nas nossas mentes
Eles querem nos confundir, nos dividir
Falar que discriminação é coisa da cabeça da gente
Que é difícil saber quem realmente é negro no Brasil
Mas o racismo sabe quem é negro
A polícia sabe, o bairro rico, o cano do fuzil
Eu to nessa luta!
Só não dá pra ficar sozinha, temos que lutar juntos
Fazer a resistência.
Eu sou negra, irmãos!
Disso eu já tenho consciência.

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